Tem artista que toca fora do Brasil para dizer que tocou fora do Brasil, e tem artista que toca fora do Brasil porque o mundo já entendeu que precisa ouvir o que ele tem a dizer. Baco Exu do Blues está na segunda categoria, e a prova disso não é nova: em 2019, o rapper baiano levou o principal prêmio da categoria Entretenimento para Música no Cannes Lions, superando “Apeshit”, de Beyoncé e Jay-Z, e dividindo o primeiro lugar com “This Is America”, de Childish Gambino.
Sete anos depois, o nome de Baco volta a circular pelos palcos europeus, e dessa vez não é estreia: é a terceira passagem pelo continente em menos de quatro anos.
A turnê europeia do álbum HASOS passou por seis cidades em cinco países: Porto e Lisboa, em Portugal; Amsterdã, na Holanda; Dublin, na Irlanda; Londres, na Inglaterra; e Bruxelas, na Bélgica. O calendário se encerra justamente nesta semana, com a apresentação em Oeiras, na região de Lisboa, no Festival Jardins do Marquês, no dia 26 de junho, seguida pela última data, em Bruxelas, no dia 27. É a continuidade de um movimento que começou ainda na década passada e que hoje se consolida como uma das trajetórias internacionais mais sólidas do rap brasileiro contemporâneo.
Baco Exu do Blues e a herança de Cannes
Falar de Baco Exu do Blues exige contextualizar o que ele representa dentro da história recente do hip hop nacional. Filho de Salvador, ele construiu uma obra que nunca se contentou em ocupar apenas o espaço do rap. Desde “Esú”, seu disco de estreia em 2017, passando pelo provocador “Bluesman” e pelo introspectivo “QVVJFA?”, Baco trafegou entre o rap, a MPB, o R&B e as sonoridades afro-diaspóricas com uma liberdade estética que poucos artistas de sua geração ousaram experimentar. Essa hibridização não é capricho artístico isolado: é parte de um projeto maior de reposicionar o rap baiano e nordestino dentro de um mapa cultural historicamente centrado no eixo Rio-São Paulo.
O prêmio em Cannes, ainda que tenha sido concedido por um trabalho audiovisual e não por uma canção isolada, funciona como um marco simbólico que merece ser relembrado justamente agora. Ele prova que a disputa pela atenção e pelo reconhecimento internacional do rap brasileiro não é uma aspiração recente. Quando “Bluesman” superou produções de artistas globais como Beyoncé e Jay-Z, o recado deixado foi claro: a narrativa negra e periférica construída a partir da Bahia tinha força estética e discursiva para competir em qualquer vitrine, inclusive nas que setores da própria indústria brasileira ainda hesitavam em validar.
É dentro dessa lógica que a atual turnê europeia ganha peso analítico. Não se trata de uma novidade isolada nem de um esforço pontual de internacionalização, mas da continuidade natural de um processo que já demonstrou maturidade. A turnê leva o repertório do álbum “HASOS”, lançado em 2025 pelo selo 999 em parceria com a Sony Music, um disco de dezoito faixas que reúne colaborações de nomes como Vanessa da Mata, Teto, Zeca Veloso e Carol Biazin. O título do álbum, sigla para “a humildade mata o orgulho”, inscrição presente na espada de Davi na obra de Caravaggio, já indica o tom de autoanálise e vulnerabilidade que marca esta fase da carreira de Baco, distante das provocações mais diretas de seus primeiros trabalhos.
Baco Exu do Blues e a consolidação de mercado
Um dado de mercado reforça a tese de que essa internacionalização não é discurso vazio de assessoria. A playlist oficial “Baco Exu do Blues – As Melhores”, curada pela própria Sony Music Brasil, acumula mais de 41 mil saves no Spotify, reunindo cinquenta e cinco faixas que atravessam toda a obra do artista. Esse número não é apenas estatística de vaidade: indica que a gravadora trata o catálogo de Baco como ativo estratégico, algo que se reflete diretamente na decisão de sustentar turnês internacionais recorrentes mesmo em um cenário onde levar artistas brasileiros de rap para circuitos europeus ainda representa investimento de risco.
A frase do próprio Baco sobre a turnê, repetida nos materiais de divulgação, resume bem o que está em jogo: ele fala sobre como histórias nascidas na Bahia conseguem atravessar oceanos e encontrar identificação em públicos de contextos completamente diferentes. Essa fala carrega um componente de orgulho regional que não pode ser ignorado pela leitura crítica. O rap brasileiro, por décadas, teve seu centro gravitacional discutido a partir do eixo Rio-São Paulo, com pouca atenção dada à potência de cenas nordestinas. Baco Exu do Blues, ao construir uma carreira internacional consistente a partir de Salvador, contribui para uma redistribuição simbólica desse mapa.
Vale notar que turnês europeias de artistas brasileiros de hip hop, mesmo quando bem-sucedidas, raramente se sustentam por múltiplas edições consecutivas. O que diferencia o caso de Baco é justamente a recorrência: não é a primeira vez, é a terceira, e isso muda completamente a leitura do fenômeno. Trajetórias pontuais podem ser creditadas a modismo ou a um momento favorável de exposição midiática. Recorrência, por outro lado, indica base de público consolidada, capacidade de venda de ingressos sustentada e, principalmente, validação contínua por parte de uma indústria que normalmente é avessa a repetir apostas em mercados periféricos.
Baco Exu do Blues como referência do rap baiano no exterior
Esse tipo de consolidação também diz algo sobre o momento atual do mercado musical brasileiro como um todo. A música brasileira, especialmente o rap e os gêneros urbanos, vive um período de maior porosidade internacional, impulsionado tanto pelas plataformas de streaming quanto pela atenção crescente que festivais e públicos europeus vêm dedicando a sonoridades fora do eixo americano e britânico. Baco Exu do Blues surfa essa onda, mas com um diferencial relevante: ele não depende de viralização de uma faixa específica para sustentar sua presença fora do país. Sua proposta é de obra, de carreira, de discurso continuado, o que tende a ser mais resiliente no médio e longo prazo do que apostas baseadas exclusivamente em hits isolados.
Ao encerrar a turnê europeia do álbum HASOS em Oeiras e Bruxelas, Baco Exu do Blues fecha um ciclo que começou ainda em 2019, quando um curta-metragem baiano superou parte do que há de mais consagrado na indústria do entretenimento global. A trajetória do artista funciona como lembrete de que o rap brasileiro, quando tratado com seriedade editorial, de mercado e de produção, tem repertório suficiente para disputar espaço em qualquer cenário internacional. Mais do que hype, o que está em curso é a consolidação de uma carreira que já provou, e continua provando, que histórias nascidas na periferia da Bahia podem, sim, atravessar oceanos.











