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Universidade do Hip Hop estreia na UERJ com DK47

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Wellington Cruz

DK47
Imagem: Internet

Nesta terça-feira, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro deixou de ser apenas um símbolo do ensino público carioca para se tornar também endereço oficial do rap nacional. A Universidade do Hip Hop foi lançada no Auditório 11 da UERJ, dentro da cerimônia batizada de “Hip Hop Contra o Feminicídio”. Assim, colocou o rapper DK47 na condição inédita de professor de extensão universitária, ao lado de outros sete MCs selecionados para o projeto.

O gesto pode parecer simbólico à primeira vista, mas carrega um peso institucional raro. Não se trata de uma oficina cultural periférica financiada por edital de curto prazo, nem de uma parceria pontual entre artista e ONG. É uma universidade pública estadual formalizando o hip hop como atividade de extensão, com carga horária e MCs como docentes. Além disso, é um projeto nascido de emenda parlamentar apresentada pela deputada Dani Monteiro, presidente da Frente Parlamentar em Defesa do Hip Hop da Alerj. Quando a academia assina embaixo de algo que nasceu na quebrada, o efeito é de legitimação, não de favor.

Do bloco de rima à cátedra da Universidade do Hip Hop

Entender a Universidade do Hip Hop exige entender quem é DK47 antes de virar professor. Nascido e criado em Teresópolis, na região serrana do Rio, ele integra o ADL, grupo formado ainda na adolescência dentro do colégio público onde estudava. A trajetória do rapper carioca passou por um breve envolvimento com o crime antes de se firmar no rap. Esse percurso ele próprio nunca escondeu. Hoje sustenta boa parte da autoridade moral com que fala sobre favela, violência e sobrevivência. Hoje ele lidera o Centro Cultural Favela Cria, iniciativa que usa cultura como ferramenta de mobilização comunitária em Teresópolis. Ele acumula mais de meio milhão de seguidores em suas redes. Nelas, se define publicamente como líder comunitário antes de MC.

É esse duplo capital, o da rua e o do palco, que a UERJ decidiu formalizar como conhecimento passível de ensino. A escolha de DK47 para compor o quadro de professores da Universidade do Hip Hop não é aleatória. Ela reconhece que o processo criativo de quem escreve rima sobre sobrevivência é, também, um processo pedagógico. Explicar como se constrói uma narrativa de superação em dezesseis compassos é ensinar estrutura, ritmo, memória e resistência ao mesmo tempo. Os nomes dos outros sete MCs selecionados para o corpo docente ainda não foram detalhados publicamente pela organização do evento. Entretanto, a proposta já indica um modelo coletivo de extensão, não a exceção de um único artista alçado à condição de figura decorativa.

A Universidade do Hip Hop e o rap que deixa de ser tratado como crime

O momento escolhido para o lançamento não é acidental. A Universidade do Hip Hop foi apresentada dentro da mesma cerimônia que lançou o livro “MC Não É Bandido”, com contracapa assinada pela rapper Ebony. O evento também marcou a entrega da Medalha Tiradentes à artista, por sua contribuição ao protagonismo feminino no rap brasileiro. O título do livro dialoga diretamente com uma pauta que atravessa anos de debate público no Brasil: a tentativa recorrente de criminalizar funk e rap como se fossem sinônimos de violência, e não expressões culturais legítimas nascidas da periferia.

Colocar essas três iniciativas, universidade, livro e medalha, no mesmo palco é uma escolha editorial da própria cerimônia. Ela conversa com um movimento mais amplo de reconhecimento acadêmico do rap no Brasil. Não é a primeira vez que uma universidade pública olha para o hip hop como objeto de estudo sério. Produções acadêmicas sobre a cultura já circulam há décadas em programas de pós-graduação Brasil afora. O que muda agora é a inversão de lugar de fala. Em vez de pesquisadores de fora analisando o rap como fenômeno social, é o próprio MC que assume a cátedra e ensina a partir de dentro.

Universidade do Hip Hop nasce dentro do enfrentamento ao feminicídio

A escolha do nome do evento, “Hip Hop Contra o Feminicídio”, também não pode ser lida como coincidência de agenda. A deputada Dani Monteiro defendeu que a violência contra a mulher não se combate apenas com legislação, mas também disputando cultura e consciência coletiva. Esse é um papel que o hip hop cumpre justamente por dialogar diretamente com a juventude periférica. Ebony, homenageada da noite, construiu carreira sendo referência de protagonismo feminino num gênero historicamente dominado por vozes masculinas. Sua contracapa no livro reforça a conexão entre representatividade racial, de gênero e justiça social dentro da cultura.

Ao reunir DK47 na sala de aula, Ebony recebendo medalha estadual e um livro que reposiciona o MC como figura social e não como suspeito, a UERJ constrói, numa única noite, três narrativas que juntas apontam para a mesma direção. O hip hop carioca deixa de pedir licença para ocupar espaço institucional e passa a ser convocado para ele.

O que a Universidade do Hip Hop muda na prática

Para o mercado da cultura urbana, a criação da Universidade do Hip Hop tem efeito prático além do simbólico. Projetos de extensão universitária costumam abrir portas para financiamento público, parcerias de pesquisa e formação de novos produtores culturais dentro da própria comunidade acadêmica. Isso é algo que historicamente ficava restrito a coletivos independentes e batalhas de rua sem qualquer chancela institucional. Quando um MC como DK47 assina como professor, ele também sinaliza para outros artistas de origem semelhante que existe um caminho possível entre a quebrada e a universidade pública. Um não anula o outro.

Fica a pergunta que vai acompanhar os próximos meses da Universidade do Hip Hop: até onde esse modelo se sustenta depois que os holofotes do lançamento se apagarem? Será que outras instituições públicas vão seguir o mesmo caminho de tratar o rap não como tema de pesquisa distante, mas como saber que se ensina de dentro para fora?

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