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Curta Nação Hip Hop tem estreia gratuita no CIC e MV Bill

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Mauro S Pereira

Mv Bill
Imagem: Internet

Florianópolis recebe nesta quinta-feira, 2 de julho, a pré-estreia do curta Nação Hip Hop: Cultura de Rua, produção que resgata a história do primeiro programa de televisão aberta dedicado ao hip hop no Brasil. A sessão, gratuita, acontece às 19h30 na Sala de Cinema Gilberto Gerlach, dentro do Centro Integrado de Cultura (CIC). Ela terá a presença do rapper, escritor e cineasta MV Bill, um dos nomes que ajudaram a construir a memória audiovisual que o filme agora recupera.

O gesto de exibir um documentário sobre televisão dentro de uma sala de cinema já carrega um símbolo. O programa Nação Hip Hop nasceu em 2001, na TV Cultura de Santa Catarina. Depois, migrou para a TV Bandeirantes SC em 2004 e permaneceu no ar até 2006, apresentado pelo comunicador Edsoul. Foi, durante esse período, uma raridade quase inédita no país. Era um espaço fixo, feito por gente da própria cena, para tratar de rap, breaking, grafite e DJing como produção cultural séria. Não era curiosidade de quadro policial ou pauta de comportamento exótico. O alcance chegou a mais de cinco milhões de espectadores. Esse é um número expressivo para uma atração regional gestada fora do eixo Rio-São Paulo.

Duas décadas depois, é esse arquivo que a diretora Laia Orisa foi buscar em fitas cassete e mini DVs para transformar em curta-metragem. Artista visual e ativista do Movimento Negro, Laia assina com Nação Hip Hop sua estreia no audiovisual. O resultado tem 15 minutos de duração, ritmo apertado e a ambição de funcionar simultaneamente como resgate histórico e como manifesto. Não é pouca coisa para um curta de estreante. Além disso, é justamente essa ambição que explica por que o filme já circula com força fora de Santa Catarina.

Curta Nação Hip Hop reconstrói pioneirismo catarinense

O que diferencia Nação Hip Hop de boa parte da produção documental sobre cultura urbana feita hoje é a matéria-prima. Em vez de reconstituir o passado por meio de entrevistas recentes que tentam recriar uma época, o curta trabalha com imagem de época genuína. Mostra o próprio programa filmado entre 2001 e 2006, entrelaçada a depoimentos atuais de quem viveu aquele momento. Essa costura entre arquivo e presente é o que dá densidade ao filme. Ela o afasta do tom nostálgico fácil, que costuma tratar histórias de periferia como curiosidade de época e não como formação de movimento.

O programa televisivo Nação Hip Hop não era apenas trilha sonora de rap na telinha. Ele funcionava como vitrine de protagonismo periférico dentro de um veículo de massa. Era um momento no qual a televisão aberta brasileira praticamente ignorava o hip hop como expressão cultural legítima. Recuperar esse pioneirismo em 2026, quando o gênero já domina paradas de streaming e enche estádios, é também um lembrete. Mostra que a legitimação atual tem raiz em quem abriu espaço décadas antes, sem patrocínio de grande mídia e sem algoritmo a favor.

MV Bill dá o tom do curta Nação Hip Hop

A presença de MV Bill não é coadjuvante. É a fala do próprio rapper que abre o curta-metragem, registrada durante o show que celebrou os 25 anos do programa, em março de 2025. Ele afirmou que aquele momento era mais do que apresentação musical, era celebração de pertencimento. Era o lembrete de que o espaço também era da comunidade presente. A frase resume o argumento central do filme. Ela traz a ideia de que ocupar telão, palco ou tela sempre foi disputa política antes de ser disputa estética.

MV Bill carrega décadas de trajetória como voz que atravessa o rap de conteúdo social sem abrir mão de repertório musical consistente, e sua ligação com Santa Catarina não é pontual. Ele já esteve à frente de ações do próprio Grupo Nação Hip Hop no estado, incluindo apresentações ao lado de ícones como Nelson Triunfo, um dos precursores da dança de rua no Brasil. Essa continuidade reforça o curta como capítulo de uma relação de longo prazo entre o artista e o movimento catarinense. Não é uma participação avulsa organizada para render presença de nome forte na pré-estreia.

Vozes que sustentam o curta Nação Hip Hop

Além de MV Bill e Edsoul, o filme entrelaça depoimentos de outros cinco protagonistas ligados à cena catarinense dos anos 2000, entre eles Jupira Dias, Marcos Antonio Batista, Paulo Cézar Júnior, Carlos Pereira e Marcelo Corcel. São nomes menos conhecidos do grande público nacional, mas essenciais para entender como um movimento se sustenta na prática. Eles são pessoas que organizam evento, ensinam oficina, sobem no palco e seguram estrutura quando não há verba nem visibilidade. O curta acerta ao dar tempo de fala para essas vozes. Assim, evita a armadilha comum de reduzir histórias coletivas a um único protagonista carismático.

Reconhecimento internacional amplia alcance do curta Nação Hip Hop

Antes mesmo da pré-estreia em Florianópolis, o curta já havia sido selecionado para dez festivais no Brasil, na Itália, em Portugal, nos Estados Unidos e na Colômbia, com vitória na categoria de Melhor Montagem no Festival Curta Noite. A lista de indicações inclui ainda a Mostra Audiovisual Wallace Leal Valentin Rodrigues. Também traz o HipHop Cinefest e o FilMuzik Arts Festival, ambos na Itália. Além disso, marca presença no Prêmio PrimeirOlhar e no Festival de Cinema de Viana. Esse circuito diz algo importante sobre o momento da cultura hip hop brasileira. O interesse por narrativas de formação de movimento já não fica restrito ao consumo musical. Ele alcança curadoria de festival e crítica especializada, ampliando o campo de disputa simbólica para além do lançamento de faixa ou clipe.

Como participar da exibição gratuita no CIC

A sessão desta quinta é aberta ao público e não exige pagamento. A distribuição de ingressos começa uma hora antes do início, por ordem de chegada, no próprio Centro Integrado de Cultura, na Avenida Governador Irineu Bornhausen, 5600, no bairro Agronômica, em Florianópolis. Depois da exibição está prevista uma roda de conversa. Esse formato tende a aprofundar o debate levantado pelo filme. Ele aproxima plateia e realizadores em um espaço que historicamente sedia parte relevante da programação cultural voltada à cena urbana catarinense.

Documentários como Nação Hip Hop cumprem uma função que vai além do registro histórico. Eles disputam narrativa em um momento no qual a cultura urbana já ocupa centro de mercado. No entanto, ainda corre risco de ter sua origem apagada ou simplificada por quem chega depois da consolidação. Lembrar que houve gente filmando, editando e apresentando hip hop na televisão aberta muito antes de qualquer estúdio ou plataforma de streaming apostar no gênero é reafirmar quem pavimentou o caminho. Por isso, essa memória precisa continuar sendo contada por quem viveu ela por dentro.