O Som Entre Nós não é um making of. É uma obra sobre o que acontece quando três artistas param de produzir para simplesmente existir juntos.
Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago lançaram nesta semana o curta-metragem que expande o universo do álbum colaborativo que os três gravaram. O filme está disponível no YouTube e já movimenta uma conversa que vai muito além do mercado musical. O que está em jogo aqui é algo mais profundo: a circulação cultural no Atlântico Negro e o que resta quando a música vira ponto de encontro entre povos que o colonialismo tentou separar.
A direção é de Helder Frutera e Cisma. A fotografia é analógica, assinada por Alice Paz. Cada escolha estética reforça que esse projeto recusa a lógica do produto. E isso, por si só, já diz muito.
Três mundos, uma frequência
Criolo chegou pelo Grajaú, periferia de São Paulo. Rapper, cantor, poeta urbano, um dos artistas mais importantes que o hip hop brasileiro já produziu. Amaro Freitas é pianista, pernambucano, e representa uma das vozes mais inventivas do jazz contemporâneo no Brasil. Dino d’Santiago é português com raízes cabo-verdianas, primeira geração da sua família a nascer em Portugal, e constrói sua música misturando hip hop, R&B e afro-house com os ritmos tradicionais de Cabo Verde.
Três trajetórias nascidas em realidades duras. Três linguagens musicais distintas. E um ponto de convergência que o documentário torna visível: o tambor como memória viva da diáspora africana.
O curta não mostra bastidores glamorosos. Mostra ensaios, jam sessions, trocas entre os músicos em diferentes territórios. Mostra o processo sem embrulho. E é nessa escolha que reside a força do projeto.
O Atlântico como fio
O documentário constrói uma narrativa que atravessa Brasil, Portugal e Cabo Verde. Não como cenário, mas como parte do argumento. O Atlântico que separou povos é o mesmo que agora conecta músicos que carregam essa história no corpo.
Há um momento no filme em que Dino d’Santiago canta Petit Pays, canção de Cesária Évora. Não é um tributo decorativo. É uma declaração de pertencimento, um gesto que amarra ainda mais o projeto à memória cabo-verdiana e ao peso afetivo do que foi construído entre os três.
O documentário também apresenta participações de As Clarianas, Maciel Salú, Beto Xambá e Henrique Albino, nomes que ampliam o alcance cultural da obra e confirmam que esse projeto tem raízes coletivas.
Hip hop como ancestralidade
Para quem acompanha a trajetória de Criolo, O Som Entre Nós representa mais um capítulo de uma obra que nunca se contentou com os limites do gênero. Desde Nó na Orelha, em 2011, o artista provou que o hip hop brasileiro é capaz de carregar samba, brega, soul e poesia marginal sem perder identidade.
A colaboração com Amaro e Dino não é uma fusão de estilos. É um diálogo entre pessoas que vêm da mesma raiz, mesmo que por caminhos diferentes. O documentário existe para tornar esse diálogo visível e permanente.
Esse tipo de encontro não acontece por estratégia de mercado. Acontece quando artistas decidem que a música não precisa virar produto para ter valor. E nesse ponto, O Som Entre Nós é um manifesto tão relevante quanto o álbum que o originou.
Disponível agora
O curta-metragem está no YouTube nos canais oficiais dos três artistas. A direção de arte é de Lucas Carvalho e Walter Silva, da Molotov. Mixagem de João Millet, masterização de Felipe Tichauer.
Assista. Esse tipo de obra raramente aparece duas vezes.










