MUBENCO: Belém Ganha Museu de Graffiti a Céu Aberto que Conecta Arte Urbana e Memória da Cabanagem

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Mano Rua

A periferia de Belém acaba de ganhar um espaço que vai muito além de paredes pintadas. O MUBENCO museu graffiti Belém — Museu Bengola em Cores de Graffiti — é um museu a céu aberto instalado no bairro do Benguí, com sete murais permanentes que transformam a paisagem urbana da comunidade em uma galeria de arte contemporânea acessível a todos.

Arte que Nasce da Periferia para a Periferia

O projeto é resultado de anos de trabalho do coletivo Tinta Preta Produções, que desde 2018 desenvolve o programa Bengola em Cores no Benguí. A ideia sempre foi simples e poderosa: levar arte de qualidade para quem raramente tem acesso a museus e galerias convencionais, usando as próprias paredes da comunidade como suporte.

Os sete murais do MUBENCO estão espalhados pelos conjuntos Xavante I, II e III, criando um percurso artístico dentro do próprio bairro. As obras são assinadas por artistas do Pará e do Maranhão — NSW, Negônica, Larissx, Mamacyta, Catatal, Mina Ribeirinha e WBS — e exploram técnicas como wild style (letras complexas e tridimensionais) e BOMB (letras arredondadas e expressivas).

Traços Cabanos: Quando o Graffiti Vira Memória Histórica

O tema que une todos os murais é “Traços Cabanos” — uma referência direta à Cabanagem, a revolta popular que sacudiu o Grão-Pará entre 1835 e 1840 e que representa um dos capítulos mais importantes e menos contados da história brasileira. A escolha não é por acaso.

Para o coletivo Tinta Preta Produções, conectar a memória da Cabanagem às lutas contemporâneas dos moradores do Benguí é uma forma de afirmar que a resistência periférica tem raízes profundas — e que o graffiti pode ser um instrumento de resgate histórico tanto quanto de expressão artística.

Um dos murais, assinado por Mina Ribeirinha, homenageia Maria Luísa, mulher negra, militante e empreendedora, e incorpora elementos táteis para visitantes com baixa visão — tornando a obra acessível de formas que vão além do visual.

Um Museu Que Pertence à Comunidade

O MUBENCO foi viabilizado com recursos da Lei Aldir Blanc, via Edital de Fomento à Criação Cultural Urbana e Periférica do Ministério da Cultura. Mas o que faz o projeto especial não é o financiamento — é o enraizamento comunitário.

Segundo Mina Ribeirinha, uma das organizadoras, o objetivo central é descentralizar o acesso à arte, criando experiências significativas para jovens e crianças da periferia que raramente veem sua própria história e cultura representadas em espaços culturais formais.

O resultado é um museu que não precisa de ingressos, horários de funcionamento ou guardas de segurança. Ele existe nas ruas, para quem passa, mora e vive no Benguí — e isso, por si só, já é uma declaração política e artística poderosa.

Belém no Mapa da Arte Urbana Brasileira

Com o MUBENCO, Belém reforça sua posição como um polo emergente da arte urbana no Brasil. A cidade, que já tem uma cena de graffiti ativa e artistas reconhecidos nacionalmente, agora conta com uma infraestrutura permanente que pode servir de referência para iniciativas semelhantes em outras periferias do país.

O museu a céu aberto do Benguí prova que cultura urbana de qualidade não precisa de endereço nobre. Às vezes, ela nasce exatamente onde mais faz sentido existir.