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Mano Brown MB10 estreia na Casa Natura Musical

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Mauro S Pereira

Mano Brown MB10
Imagem: Internet

Mano Brown sobe pela primeira vez ao palco da Casa Natura Musical nesta sexta e neste sábado, dias 3 e 4 de julho, com a turnê MB10, e as duas noites já estão com ingressos esgotados. Não é só uma estreia de casa. É o rapper de Capão Redondo escolhendo o formato certo, na hora certa, para apresentar ao vivo a costura que sempre esteve no centro do seu trabalho: o rap como herdeiro direto da black music americana dos anos 1970 e 1980.

Mano Brown MB10 e o formato que muda a leitura do show

Quando a Casa Natura Musical anunciou a passagem de Mano Brown por seu palco, em maio, a notícia circulou como mais um item de agenda cultural paulistana. Mas o que está em jogo na turnê MB10 é mais denso do que uma data de show. O repertório cruza faixas do álbum solo Boogie Naipe, indicado ao Grammy Latino em 2016, com clássicos que Mano Brown gravou como líder dos Racionais MC’s ao lado de KL Jay, Ice Blue e Edi Rock. Tudo isso ao vivo, com DJ e banda completa, num formato que atravessa o rap de raiz e passeia pelo soul, pelo funk e pela disco music das décadas de 1970 e 1980.

Essa arquitetura sonora não é acidente de produção. É declaração de linhagem. Ao subir num palco com banda ao vivo para tocar Boogie Naipe ao lado de Racionais, Brown está dizendo, sem precisar dizer, que o rap brasileiro nasceu ouvindo James Brown, Isaac Hayes, Kool & The Gang. A cena do hip-hop nacional sempre soube disso, mas raramente um artista do calibre de Brown transforma essa genealogia em espetáculo formal, com arranjo de banda, ao invés de deixar a referência subentendida nas batidas sampleadas.

Sold out em dois dias reforça o momento do artista

O primeiro sinal de que a Casa Natura Musical havia acertado a mão veio rápido. Assim que as vendas abriram, em maio, os ingressos para o dia 4 de julho, sábado, esgotaram em menos de 24 horas. A casa reagiu abrindo uma segunda data, na sexta-feira, dia 3, para atender a demanda que sobrou de fora. O resultado, segundo a programação mais recente divulgada pela própria casa, é que as duas apresentações estão esgotadas. Duas noites, zero vaga, para uma estreia de um artista que já é sinônimo de casa cheia há mais de três décadas.

Esse tipo de sold out duplo em espaço de médio porte diz algo sobre o momento de Mano Brown que vai além da nostalgia dos Racionais. Ele carrega hoje um capital simbólico que atravessa gerações e nichos. É reconhecido como Ícone do Ano pela GQ Brasil em 2023, comanda desde 2021 o podcast Mano a Mano, no Spotify, onde já entrevistou nomes como Drauzio Varella, Marina Silva, Gilberto Gil e Emicida, e em 2013 fundou, ao lado de Eliane Dias, a Boogie Naipe, produtora que hoje também abriga novos nomes do rap e do trap. Ou seja, Brown não vende show como quem revisita passado. Vende show como quem segue no centro do debate cultural brasileiro, com uma trajetória que soma música, pensamento e reconhecimento institucional, incluindo o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Sul da Bahia.

Casa Natura Musical e a curadoria que abraça o rap

A escolha da Casa Natura Musical como palco também merece leitura própria. Em atividade desde 2017 no bairro de Pinheiros, a casa construiu identidade como espaço de curadoria plural, historicamente mais associado a nomes da música brasileira e latino-americana em sentido amplo do que ao rap de rua. Receber Mano Brown pela primeira vez, com casa cheia nas duas noites, é também um movimento de posicionamento da casa dentro do circuito de shows do hip-hop nacional, um circuito que segue crescendo em espaços que antes tratavam o gênero como periférico até no sentido geográfico da programação.

Essa aproximação entre equipamentos culturais de perfil mais tradicional e a cena do rap não é isolada. Ela acompanha um movimento mais amplo de instituições reconhecendo o hip-hop como patrimônio cultural formal, do mesmo tipo que já rendeu homenagens institucionais a nomes da cena e criou espaços acadêmicos dedicados à cultura urbana. Mano Brown, nesse sentido, entra na Casa Natura Musical não como concessão, mas como reconhecimento tardio de que o rap sempre teve lugar entre os grandes nomes da música brasileira contemporânea.

O que o show representa para quem acompanha a cena

Para quem cobre cultura urbana de perto, o dado mais relevante da turnê MB10 não é o esgotamento rápido dos ingressos, embora ele confirme a força de Brown junto ao público. É o formato. Um show com banda ao vivo, atravessando black music americana e rap nacional, é também um exercício de pedagogia cultural: mostra ao público que talvez não tenha vivido a formação do hip-hop brasileiro de onde vieram as batidas, os samples, a estética. Capão Redondo dialogando com o soul dos anos 1970 não é mistura forçada. É a origem sendo apresentada em primeira pessoa, por quem ajudou a construir essa ponte desde os anos 1990.

A estreia de Mano Brown na Casa Natura Musical, com duas noites esgotadas antes mesmo de o show acontecer, confirma algo que a cena do rap brasileiro já sabe há tempo: a plateia está pronta para ouvir a própria história contada com profundidade, não apenas revisitada como saudade. O desafio agora é que mais espaços sigam esse caminho, e que shows como esse deixem de ser exceção para virar regra na programação da música brasileira.

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