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Ebony recebe Medalha Tiradentes na luta contra feminicídio

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Mauro S Pereira

Ebony
Imagem: Reprodução

Nesta terça-feira (30), a rapper Ebony recebeu a Medalha Tiradentes em cerimônia realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, dentro do evento Hip Hop Contra o Feminicídio. A honraria, maior condecoração concedida pela Alerj, reconhece uma trajetória construída na Baixada Fluminense e transformada em ferramenta política contra a violência de gênero. Assim, consolida o momento em que o rap deixa de ser pauta cultural isolada para ocupar, de forma institucional, o centro do debate público brasileiro.

Ebony recebe Medalha Tiradentes em cerimônia na Uerj

A cerimônia aconteceu no Auditório 11 da Uerj, às 18h, reunindo artistas, produtores culturais, acadêmicos e representantes do movimento hip hop em torno de um propósito comum: discutir o papel da cultura no enfrentamento à violência contra as mulheres. Ebony, nascida Milena Pinto de Oliveira, chegou ao evento como uma das principais vozes da nova geração do rap nacional. Ela já passou por festivais como The Town, Rock The Mountain e Primavera Sound. Além disso, lançou o álbum KM2, eleito um dos melhores discos brasileiros de 2025 pela Rolling Stone Brasil.

A escolha do nome de Ebony para receber a Medalha Tiradentes não nasce de um gesto simbólico isolado. Há um histórico recente que sustenta essa condecoração. Em fevereiro, a artista já havia representado a periferia e o hip hop no lançamento do Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, no Palácio do Planalto, ao lado do presidente Lula e de autoridades dos Três Poderes. Naquela ocasião, Ebony resumiu sua presença como um gesto de representatividade dentro de um espaço historicamente ocupado por outras vozes. Além disso, reforçou que o feminicídio é a etapa final de um processo de violência que começa muito antes, na forma como meninos são criados.

Medalha Tiradentes marca lançamento da Universidade do Hip Hop

O que diferencia essa cerimônia de uma simples entrega de honraria é o segundo eixo que ela carrega. No mesmo evento em que Ebony recebeu a Medalha Tiradentes, foi lançada oficialmente a Universidade do Hip Hop, projeto nascido de emenda parlamentar que selecionou oito MCs para atuarem em atividades de extensão dentro da própria Uerj. Entre os nomes escolhidos está o rapper DK47, que passa a integrar o corpo de professores do curso. Assim, o evento une dois momentos que vinham caminhando em paralelo na cena carioca: o reconhecimento individual de uma artista e a institucionalização coletiva do rap como campo de conhecimento.

Essa dobradinha não é acidental. Colocar a homenagem a Ebony e o nascimento da Universidade do Hip Hop no mesmo palco é uma decisão editorial da própria Alerj. Isso sinaliza entender o hip hop não como manifestação cultural periférica isolada, mas como sistema capaz de formar, educar e ocupar espaços de poder. A programação do evento ainda incluiu o lançamento do livro MC Não É Bandido, com contracapa assinada pela própria Ebony. Assim, reforçou a costura entre literatura, música e ativismo dentro de um único projeto político.

Dani Monteiro e a força política por trás da Medalha Tiradentes

A proposta da Medalha Tiradentes para Ebony partiu da deputada estadual Dani Monteiro, presidente da Frente Parlamentar em Defesa do Hip Hop da Alerj. A escolha de Dani como articuladora não é detalhe menor. Trata-se de uma parlamentar que já vinha construindo pontes entre o mandato legislativo e a cultura de rua. Ela enxerga no hip hop uma ferramenta de disputa simbólica tão relevante quanto qualquer projeto de lei.

Ao justificar a homenagem, Dani Monteiro definiu Ebony como uma artista que usa a força da própria obra para enfrentar o machismo, denunciar a violência contra mulheres e incentivar novas gerações de meninas a ocuparem espaço dentro e fora da música. A parlamentar também deixou clara a leitura estratégica por trás da medalha: o feminicídio não será resolvido apenas por legislação. Além disso, a cultura, sobretudo o hip hop, tem papel decisivo por dialogar diretamente com a juventude e romper ciclos de violência que se repetem geração após geração.

O que a Medalha Tiradentes de Ebony representa para o rap negro e periférico

Do ponto de vista de mercado e branding, a Medalha Tiradentes entregue a Ebony funciona como um selo de legitimidade que ultrapassa os limites da indústria musical. Prêmios de festival, certificações de streaming e capas de revista já fazem parte da trajetória da artista. Contudo, uma honraria concedida por um parlamento estadual muda o tipo de conversa que se pode ter sobre ela. Ebony deixa de ser tratada apenas como fenômeno de rap feminino e passa a ser lida como agente político. Dessa forma, ela se torna capaz de influenciar pauta pública em temas que vão além da música.

Essa movimentação também precisa ser lida dentro de um contexto maior. O rap brasileiro, historicamente marginalizado por instituições que o tratavam como caso de polícia, vem conquistando, nos últimos anos, um tipo de reconhecimento que era impensável há uma década. Agora, parlamentos criam frentes parlamentares específicas para a cultura hip hop. Além disso, universidades abrem espaço para MCs como professores, e rappers dividem palco com chefes de Estado em atos oficiais. A trajetória de Ebony, da Baixada Fluminense ao Palácio do Planalto e, agora, à Medalha Tiradentes, sintetiza esse deslocamento.

Fica evidente que a cerimônia na Uerj não encerra uma pauta, ela abre um novo capítulo. Com DK47 assumindo sala de aula e Ebony carregando uma medalha que simboliza décadas de luta pela liberdade, o hip hop carioca reforça que sua disputa nunca foi apenas por espaço nas paradas de sucesso. Assim, a disputa acontece por lugar permanente nas estruturas que decidem o rumo da cultura e da política no Rio de Janeiro.

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