O rapper do Jardim Iporanga perdeu parte do pulmão para a doença que mata milhares nas quebradas todo ano e respondeu cruzando a linha de chegada de uma meia maratona.
Tem verso que não é metáfora. É laudo médico, é cicatriz, é pulmão incompleto funcionando mesmo assim. O rapper, cantor e compositor Rael, Israel Feliciano, filho do Jardim Iporanga, Zona Sul de São Paulo, sobreviveu à tuberculose numa forma que poucos imaginam possível: perdeu parte do pulmão, ouviu de um médico que sua saúde estava condenada, ignorou o prognóstico e foi correr. Literalmente. Em 2023, Rael participou da Maratona do Rio de Janeiro. O cantor e compositor paulista, que perdeu parte do pulmão por tuberculose, hoje tem na corrida de rua um estilo de vida. Nas suas próprias palavras, sem rodeio nenhum: “Além de eu curtir, é uma parada de vida. Eu tive problemas de pulmão. Para dar conta da minha vida, eu precisava de disposição. A corrida traz benefícios, traz disposição, saúde e virou hábito. Cada vez que tem uma meia maratona, vira um incentivo.”
O médico que deu o artista por encerrado
A história que a GQ Brasil revelou em 2025 vai além da corrida e mexe com qualquer um que acompanha a trajetória desse cara. Depois da tuberculose devastar parte do seu pulmão, um médico olhou nos olhos de Rael e, na prática, decretou o fim. Condenou sua saúde. Disse que aquele corpo não teria capacidade para uma vida plena, muito menos para esportes de resistência. Rael ignorou. Hoje ele se define, com a leveza de quem sabe o peso do que carrega: “Sou meio maratonista.” E emenda, sem grandiloquência, o que talvez seja a frase mais poderosa de toda sua trajetória: “Se tivesse ouvido ele, não estaria aqui.”
A tuberculose que a quebrada conhece
A tuberculose não é abstração na periferia brasileira. É vizinho internado, é tosse que não passa, é diagnóstico que chegou tarde. No Brasil, a cada ano, são notificados aproximadamente 70 mil casos novos e ocorrem cerca de 4,5 mil mortes em decorrência da doença. Ela é considerada endêmica no país e tem predileção histórica pelos territórios onde o Estado chega menos: cortiços, favelas, habitações sem ventilação, sem sol, sem estrutura. Causada pelo bacilo de Koch, a bactéria compromete o pulmão e outros órgãos e se transmite pelas vias aéreas, na fala, no espirro ou na tosse de quem está com a doença ativa. Nos casos mais graves, ela destrói tecido pulmonar de forma irreversível e foi exatamente isso que aconteceu com Rael. O corpo perdeu. O pulmão foi embora em parte. O que ficou teve que aprender a dar conta do recado sozinho.
De Rael da Rima para Rael: uma vida que sempre exigiu mais
Nascido e criado na Zona Sul de São Paulo, no Jardim Iporanga, Rael começou a construir sua história no rap com o grupo Pentágono, que se tornaria referência no rap nacional. Foi lá que ficou evidente o que o diferenciava: “Eu sempre misturei o rap com outros gêneros, nunca quis me aprisionar a nomenclaturas pré-estabelecidas pelo mercado.” De Pentágono a duas indicações ao Grammy Latino, de MP3 – Música Popular do Terceiro Mundo ao Raelpalooza, como os fãs batizaram seu show histórico no Lollapalooza 2024, com Emicida e Mano Brown no palco. A apresentação foi tão marcante que virou mini-documentário: O Caminho, da Quebrada até o Lolla. Entre todos esses marcos estava a tuberculose. O pulmão destruído. O médico que condenou. E a escolha de continuar em movimento, a mais radical que um artista da periferia pode fazer quando a doença e o pessimismo se alinham para dizer que não vai dar.
A corrida como ato político
Existe algo de profundamente político no fato de Rael, um homem negro nascido na Zona Sul de São Paulo que cresceu num Brasil que historicamente descarta corpos como o dele, cruzar a linha de chegada de uma meia maratona com um pulmão incompleto. Sobre o álbum Capim-Cidreira, ele mesmo disse: “Eu acredito que, do mesmo modo que fiquei mal de saúde para encontrar a leveza das músicas, o país também passará por isso.” A cura, para Rael, nunca foi passiva. Ela foi construída nas batidas, nas letras e, literalmente, nos quilômetros rodados. O rapper que um dia ouviu que não teria disposição para viver completamente virou maratonista. A voz que a tuberculose tentou apagar ainda canta. E as pernas que percorreram a Maratona do Rio continuam em movimento, provando, a cada passada, que o prognóstico mais perigoso do mundo é subestimar quem veio da quebrada.










