A CIMED fez o que a Nike não conseguiu: olhou para o futebol brasileiro e enxergou paixão antes de enxergar mercado. Essa leitura muda tudo quando o assunto é construir conexão real com o torcedor brasileiro.
A Nike está na camisa da Seleção Brasileira desde 1996. Trinta anos de relação com o futebol mais apaixonado do mundo. Com esse histórico, a decisão que tomou para a Copa de 2026 diz muito sobre como a marca enxerga esse território.
Pela primeira vez na história, uma seleção nacional substituiu o logo da Nike pelo Jumpman, o ícone característico da Jordan Brand. O símbolo de Michael Jordan, lenda do basquete americano, estampado na camisa reserva do Brasil para a Copa do Mundo.
Não é uma crítica ao design. É uma questão de lógica emocional.
Basquete americano não fala com a paixão brasileira
A camisa incorpora a estampa “Elephant Print”, criada pelo designer Tinker Hatfield para o tênis Air Jordan 3, lançado em 1988, em referência ao legado da marca no basquete.
Jordan é um ícone. Mas é um ícone de outro esporte, de outro país, de outra cultura.
O torcedor brasileiro que para o país numa Copa do Mundo, que acorda de madrugada para ver jogo, que chora no gol e na derrota, não tem nenhuma conexão emocional com o basquete americano. São universos que não se traduzem. Não se substituem. Não se encontram.
Colocar o Jumpman na camisa da Seleção não é fusão de culturas. É sobreposição de uma sobre a outra. E quando você sobrepõe uma marca de basquete americano à identidade do futebol brasileiro, você não está homenageando o torcedor. Está ignorando o que ele sente.
O recado da CIMED
A CIMED foi na direção contrária. E fez questão de deixar isso claro.
A collab com a NJR Eyewear, a marca de óculos do próprio Neymar, não é um detalhe. É uma declaração. A CIMED não chegou com um nome emprestado de outro esporte ou de outra cultura. Chegou pelo universo de um dos jogadores mais importantes da história do futebol brasileiro, dentro de algo que ele mesmo construiu.
Neymar é Brasil. É o jogador que carregou a camisa amarela por mais de uma década, que viveu as maiores glórias e as maiores dores com aquela camisa nas costas. Associar a CIMED a ele, pelo caminho da NJR Eyewear, é ancorar a marca em algo que o torcedor brasileiro reconhece como seu.
O recado está dado sem precisar ser dito.
O Canarinho como espelho do torcedor
O Canarinho Pistola fecha o triângulo com precisão.
Não nasceu em agência. Nasceu nas ruas, nas arquibancadas, nas páginas de humor que transformaram a irreverência do torcedor brasileiro em símbolo coletivo. É um personagem que pertence ao povo antes de pertencer a qualquer marca. Representa exatamente o que o Jumpman não consegue representar: a paixão brasileira pelo futebol, por dentro, sem tradução.
Neymar ao lado do Canarinho, dentro de uma collab com a NJR Eyewear e com a CIMED. Futebol brasileiro de um lado ao outro. Nenhum desvio. Nenhuma referência externa.
Essa é a diferença central entre os dois movimentos.
A Nike enxergou o futebol brasileiro como plataforma para expandir uma identidade global. A CIMED enxergou o torcedor brasileiro como ponto de partida.
Escassez como linguagem
Os óculos numerados não serão vendidos.
Quando um produto não pode ser comprado, ele para de ser produto e vira objeto de desejo, símbolo de pertencimento, conteúdo orgânico. Quem receber um par entra em uma narrativa que não tem valor de tabela.
Mas o que sustenta essa narrativa não é a escassez em si. É o que ela representa. Um símbolo popular, um atleta que carrega o peso da camisa amarela e uma marca que escolheu olhar para dentro antes de olhar para o mundo.
Branding que disputa memória
João Adibe tem falado publicamente sobre a necessidade de a CIMED ocupar territórios emocionais, não só farmacêuticos. Esse movimento é a prova prática disso.
A Nike tem contrato com a CBF até 2038, com pagamento de 100 milhões de dólares fixos por ano. É o maior contrato da história da entidade. Com esse poder, escolheu trazer o basquete americano para dentro do futebol brasileiro.
A CIMED tem apenas uma fração desse orçamento. E mesmo assim chegou mais perto do torcedor.
Uma colocou o Jumpman na camisa.
A outra encontrou o Canarinho.
O que esse movimento revela
Farmacêutica fazendo óculos de futebol soa estranho até você entender o que está por trás. Não é diversificação de produto. É construção de território emocional.
As marcas que ficam na memória das pessoas não são necessariamente as maiores. São as que chegam mais perto do que as pessoas realmente sentem. No Brasil, futebol é um dos poucos territórios onde esse sentimento ainda é bruto, real e coletivo.
Quando uma marca entra nessa conversa com autenticidade, ela para de competir apenas na sua categoria. Passa a disputar espaço na memória coletiva.
Esse é o verdadeiro jogo do branding. E a CIMED acaba de dar um lance que a Nike, com todo o seu poder e trinta anos de contrato, não conseguiu dar.











