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Festival Favela Sounds lança a programação da edição de 10 anos

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Mauro S Pereira

Festival Favela Sounds
Imagem: internet

artistas e empreendedores das periferias do Distrito Federal. Favela Sounds 10 anos representa esse duplo movimento, festa e formação, que sustenta o projeto desde 2016. Isso explica por que o Favela Sounds conseguiu atravessar dez anos sem se transformar em apenas mais um festival de verão na agenda cultural brasileira. Aliás, Favela Sounds 10 anos é uma prova desse pioneirismo.

Favela Sounds: uma década construída fora do eixo tradicional da música

Criado em Brasília, o Favela Sounds nasceu de um movimento que já era comum nas periferias antes de virar pauta de mercado. Transformar a quebrada em vitrine, sem pedir permissão ao circuito tradicional de shows, era o objetivo. Ao longo de dez anos, o festival reuniu um público estimado em cerca de 197 mil pessoas. Além disso, apresentou 184 artistas vindos do Brasil e de outros 13 países, um volume que poucos festivais dedicados à cultura urbana conseguiram sustentar fora do eixo Rio–São Paulo. Sem dúvida, Favela Sounds 10 anos é um marco para a cena cultural independente.

Esse histórico é o que dá peso à edição de aniversário. O Favela Sounds 10 anos não é apenas uma comemoração de data redonda. Ele é a confirmação de um modelo de curadoria que sempre tratou funk, rap, trap, tecnobrega, samba e música eletrônica africana como parte de um mesmo território sonoro. No entanto, nunca houve hierarquia entre o que vem do centro e o que vem da borda.

A escalação da edição de aniversário do Favela Sounds

A cantora paraense Gaby Amarantos encabeça a programação com o show de “Rock Doido”, álbum que traduz para o formato de turnê a energia das festas de aparelhagem da Amazônia. Ao lado dela, Valesca Popozuda estreia no festival e promete um tributo a Mr. Catra, primeiro artista a apoiar publicamente o projeto ainda em sua fase inicial. Por isso, a homenagem ganha um peso histórico dentro da própria narrativa do Favela Sounds.

A rapper Stefanie, do ABC Paulista, chega para apresentar “BUNMI”, álbum lançado em 2025 que marca mais de duas décadas de carreira dedicada ao hip-hop. A presença dela ao lado de nomes emergentes como Kyan mostra a intenção da curadoria. Kyan mistura rap, trap e funk em uma proposta claramente voltada às plataformas digitais. Dessa forma, a curadoria coloca gerações diferentes no mesmo palco sem transformar isso em disputa de relevância. Favela Sounds 10 anos busca exatamente essa conexão entre diferentes cenas.

O time também reúne Puterrier, Carlos do Complexo, Ciça, Bonekinha Iraquiana, th4ys, DJ Cia, além de Bia Soull, que representa o Paraná com um funk que usa humor e sexualidade para tensionar moralismos, e DJ Méury, que leva o tecnobrega direto do Pará. Do Distrito Federal, Breno Alves representa o samba candango. Por outro lado, Novin Yarp, New Nay e Zapatta trazem diferentes leituras da produção urbana feita na capital.

Diáspora sonora: a presença africana na programação do Favela Sounds

Um dos pontos mais interessantes da edição de dez anos é a expansão da ponte com o continente africano, algo que o Favela Sounds já vinha construindo em edições anteriores. Porém, ganha agora um contorno mais evidente. O produtor ugandense Faizal Mostrixx chega com uma mistura de música eletrônica africana, amapiano e ritmos tradicionais. Enquanto isso, o tanzaniano DJ Travella representa o singeli, gênero eletrônico de ritmo acelerado que saiu das periferias da Tanzânia para conquistar pistas fora do continente nos últimos anos.

Essa curadoria não é decorativa. Ela reforça um argumento que artistas e pesquisadores da cultura periférica vêm defendendo há anos. As conexões entre funk, tecnobrega, amapiano e singeli não são coincidência estética. São parte de um mesmo processo histórico de comunidades negras e periféricas que transformam escassez de recursos em inovação sonora. A cantora Enme, que volta ao festival para lançar “Conexão Jamaica Brasileira, Vol. 1”, reforça essa leitura ao unir o funk brasileiro ao reggae jamaicano. Ela assume esse projeto que dialoga diretamente com essa diáspora musical.

Representatividade e mercado na curadoria do Favela Sounds 2026

Segundo o diretor artístico do festival, Guilherme Tavares, a edição de 2026 coloca os discotecagens no centro da programação. Esse movimento acompanha uma tendência maior do mercado de música periférica, cada vez mais organizado em torno da figura do DJ como autor e não apenas como técnico de festa. Essa escolha também aparece na presença consistente de mulheres em posições de protagonismo, de Gaby Amarantos a Valesca Popozuda, passando por Bia Soull e DJ Méury. A curadoria evita reduzir a presença feminina a números simbólicos.

Paralelamente ao Baile, o Favela Talks segue funcionando como a espinha dorsal de sustentabilidade do projeto. Rodadas de negócios conectam artistas e empreendedores periféricos a representantes de gravadoras, plataformas de distribuição e produtoras, em um formato que trata cultura como cadeia produtiva. Além disso, não trata apenas como entretenimento pontual de fim de semana. Não há dúvidas de que Favela Sounds 10 anos reforça essas conexões do mercado musical periférico.

O que uma década de Favela Sounds diz sobre o futuro da música periférica

Dez anos depois de nascer como uma aposta local em Brasília, o Favela Sounds virou referência de como um festival de periferia pode crescer sem abandonar a comunidade que o originou. A presença de artistas ugandenses e tanzanianos ao lado de nomes do tecnobrega paraense e do samba candango do Distrito Federal mostra que a cultura urbana brasileira já não pensa suas conexões apenas dentro das fronteiras nacionais.

Mais do que um calendário de shows gratuitos, a edição de dez anos funciona como um retrato do que a música de periferia se tornou no Brasil. Ela é um ecossistema com mercado próprio, capacidade de internacionalização e discurso político embutido em cada escolha de curadoria. Se o Favela Sounds nasceu como gesto de ocupação simbólica da Esplanada dos Ministérios, sua décima edição confirma que essa ocupação deixou de ser exceção para se tornar tradição. Por fim, Favela Sounds 10 anos simboliza essa transformação e resistência cultural.

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