Troca Rima: NOG e Neto do Síntese provam que o rap brasileiro tem história para contar em cima de qualquer beat

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O Troca Rima voltou com o episódio que a cena precisava assistir. NOG recebe Neto, voz do Síntese, e o encontro vai muito além de um freestyle. O que acontece quando um dos nomes mais líricos e espirituais do rap nacional pega um beat clássico gringo sem aviso prévio?

O formato criado pela Yalla Rec e apresentado por NOG segue sua proposta essencial: o DJ Kefing apresenta três batidas clássicas internacionais, e os MCs precisam reagir na hora. Sem escolha de tema, sem combinação prévia. Só a rima, o beat e a capacidade de transformar pressão em arte.

Com Neto na cadeira, a dinâmica ganhou uma profundidade diferente.

O Síntese carrega quinze anos de trajetória. O duo de São José dos Campos estreou em 2012 com o álbum duplo “Sem Cortesia”, obra que atravessou gerações e ainda circula entre quem entende o rap como linguagem, não só entretenimento. Após o afastamento de Leonardo Irian por questões de saúde mental, Neto seguiu à frente do projeto, colaborando com Criolo, trabalhando com Daniel Ganjaman e construindo uma discografia que vai do existencial ao espiritual sem abrir mão das ruas.

Em 2024, a partida precoce de Irian abalou a cena inteira. O luto foi público, coletivo e musical. “Flor de Maio”, lançado em 2025, nasceu desse processo. É nesse lugar de reconstrução e significado que Neto chega ao Troca Rima.

E isso aparece no improviso.

Neto não rima por rimar. Cada palavra carrega intenção. Mesmo diante de bases inesperadas, a presença lírica não some. O que o episódio entrega é raro: a chance de ver como um artista desse calibre pensa em tempo real, como constrói imagem e narrativa no espaço entre um compasso e o próximo.

NOG, como sempre, funciona como âncora e como parceiro. Anfitrião do projeto, ele não apenas recebe, ele joga junto. Sua escolha de convidados revela uma curadoria precisa: cada nome traz uma camada diferente da cena, e Neto representa o rap que não precisa de hype para ser relevante.

O DJ Kefing fecha a equação. Sua função não é técnica. Ele escolhe os beats, define o clima e empurra os artistas para territórios que eles não escolheram. No Ep. 1, NOG já havia destacado que Kefing acompanhou Sabotage. Isso não é detalhe, é contexto. O DJ que conhece a história do rap brasileiro sabe exatamente o que cada base provoca num MC de respeito.

O Troca Rima já mostrou sua identidade nos três primeiros episódios. Com Jotapê na estreia, Pedro Qualy no Ep. 2 e agora Neto do Síntese, o projeto não está montando um ranking. Está construindo um arquivo. Cada episódio é um documento da cena, com erro, acerto, pressão e verdade.

Num momento em que o rap brasileiro debate velocidade, presença digital e quantidade de lançamentos, o formato chama atenção por apostar no oposto: câmera, beat, dois MCs e a habilidade de sustentar uma rima que valha a pena ser ouvida.

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