Nina Pandolfo: a arte como portal periférico

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Redação MDR

A exposição Nina Pandolfo no Farol Santander, intitulada Portais, não é apenas mais uma mostra de uma artista que migrou do muro para a galeria. É um documento de como a cultura urbana, especificamente o grafite e suas ramificações pictóricas, conseguiu fissurar o concreto institucional sem precisar pedir licença. Nina Pandolfo, que construiu sua linguagem visual nas ruas nas décadas de 1990 e 2000, entre muros de São Paulo e murais internacionais, hoje ocupa dois andares de um dos edifícios mais simbólicos da capital paulista com uma obra que recusa o rótulo de “street art domesticada”. O que se vê em Portais é o amadurecimento de uma trajetória que nunca abandonou sua origem periférica, mesmo quando o mercado tentou embalá-la como produto cool.

A curadoria da mostra, assinada pela própria artista em parceria com sua equipe, estrutura a jornada do público a partir de quatro elementos fundamentais: água, ar, terra e fogo. Essa escolha não é decorativa. No hip hop e na cultura urbana, os elementos naturais sempre serviram como metáforas para a resistência. A água que abre a viagem remete aos rios de Ceilândia, Planaltina e tantas outras quebradas onde o rap e o grafite encontraram seu leito. Nina Pandolfo nunca fez rap, mas sua obra dialoga com a mesma matéria prima: a realidade dura transmutada em poesia visual. As meninas de olhos grandes que habitam seus quadros, esculturas e instalações são primas das narrativas de MT das Ruas, do GOG, do Racionais. Elas são a periferia reimaginada, não como vitimismo, mas como potência.

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O capítulo da mostra intitulado “Sintonizada” expõe pilhas de antigas televisões de tubo, pintadas com as cores vibrantes características de Nina Pandolfo. Ali há uma memória afetiva que a cultura urbana conhece bem: o aparelho de TV aberto, consertado pelo pai técnico, as válvulas que viravam cidades futurísticas na imaginação infantil. É o mesmo universo do sample, do break, do disco de vinil arranhado que vira batida. A artista não está apenas revisitando a infância. Está afirmando que a tecnologia precária, o eletrônico obsoleto, é matéria prima de transformação. Antes do streaming, antes do algoritmo, havia o gambiarra. E Nina Pandolfo transforma essa gambiarra em alta cultura sem perder a sujeira criativa do processo.

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No segundo andar, a obra “Your Voice Makes me Believe” se apresenta como pintura viva, em movimento contínuo. A proposta imersiva convida o público a ouvir e sentir para além da imagem. Esse gesto ecoa uma das bases do hip hop: a escuta ativa. O MC escuta a rua, o DJ escuta o vinil, o breaker escuta o ritmo. Nina Pandolfo propõe que a arte também deve ser experienciada com o corpo inteiro, não apenas com o olhar. Em uma cena onde a arte urbana frequentemente é reduzida a estética de parede instagramável, a exposição Portais devolve à rua a complexidade que ela sempre teve.

A escultura “Herança de um Amor”, uma gata gigante em homenagem à sua felina Mona, que viveu vinte anos, é outro ponto alto. O animal na obra de Nina Pandolfo não é fofo por acaso. Ele é guardião. Mona conduz o público ao subsolo do Farol, onde estão as raízes, os esboços inacabados, os desenhos molhados, os rabiscos que nunca chegaram à parede final. É lá, nas profundezas, que a artista revela seu processo. E esse processo é inseparável da cultura urbana. O rascunho no caderno, o boneco no muro antes do spray, a tentativa, o erro, a interferência. No mercado musical, a indústria quer o hit pronto. No sistema das galerias, quer a obra acabada. Nina Pandolfo expõe o inacabado como parte legítima da criação. Isso é atitude de rua.

A mostra também tensiona a relação entre arte urbana e patrocínio corporativo. Realizada sob a Lei Rouanet com patrocínio do Santander, Portais não esconde seu financiamento institucional. E aqui não cabe purismo raso. A cultura hip hop sempre soube fazer a ponte entre o independente e o investimento, entre a quebrada e o grande centro, sem romantizar a pobreza. O que Nina Pandolfo demonstra é que é possível ocupar o espaço do poder sem se curvar a ele. Suas meninas continuam voando, suas cores seguem intensas, suas sombras dançantes no subsolo não pedem permissão.

O capítulo “Sombras Dançantes” é talvez o mais brutal da exposição. Em uma sala escura, projeções de sombras de meninas dançam conforme o movimento do público. Cada uma tem uma personalidade: a forte, a atrapalhada, a delicada. A obra pergunta: o que sua sombra revela? No contexto da cultura urbana, essa pergunta ressoa na discussão sobre identidade e representação. Quantos jovens periféricos viram suas sombras apagadas por sistemas de vigilância, por balas perdidas, por ausência de políticas públicas? Nina Pandolfo não responde diretamente, mas ao dar corpo à sombra, ela restitui humanidade ao que normalmente é invisibilizado.

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A exposição encerra com “O Último Mergulho”, uma gruta subterrânea com seres fluorescentes, cantos de baleia e uma moça. É um convite à volta ao mundo real, mas transformado. Esse movimento de saída e retorno é a própria estrutura da arte urbana. O grafiteiro sobe no muro, intervém, desce, e a cidade nunca mais é a mesma. Nina Pandolfo oferece ao público esse mesmo ciclo. Não se sai de Portais como se entrou.

Há quem diga que a arte urbana perdeu sua força ao entrar em museus. A obra de Nina Pandolfo prova o contrário. Ela não abandonou a rua. Ela trouxe a rua para dentro, com suas contradições, suas memórias afetivas, seus processos manuais e sua recusa em ser enquadrada. O que se vê no Farol Santander não é uma exposição de grafite para turista ver. É uma aula de como a periferia pensa, sente e cria. Para o portal Mundo da Rua, que nasceu da mesma premissa de dar voz ao que sai do asfalto, Portais é um espelho. E um alento. Porque enquanto houver artistas como Nina Pandolfo resistindo ao lugar comum, a cultura urbana continuará viva, não como nicho, mas como pensamento central da arte brasileira contemporânea.

Local: Farol Santander

Entrada para visitação, mediante a compra de ingressos, até às 19h, podendo permanecer até às 20h.

Terça a domingo, das 09h às 20h.