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Froid grava no NT Sessions em estúdio de Minas Gerais

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Mauro S Pereira

Froid grava no NT Sessions em estúdio de Minas Gerais
Imagem: Internet

O NT Sessions ganha seu terceiro capítulo e desta vez quem senta na cadeira de convidado é Froid, rapper brasiliense que construiu carreira sobre densidade lírica e agora testa essa mesma densidade contra a força de uma orquestra inteira. O projeto foi idealizado pela produtora Novo Traço, sob regência do maestro Carlos Prazeres. Ele levou o artista até o Sonastério, estúdio imersivo cravado nas montanhas de Nova Lima, em Minas Gerais. O objetivo era gravar um EP que não nasceu de uma ideia de escritório. Pelo contrário, resultou de dias inteiros de convivência entre músicos de formação clássica e um rapper acostumado a escrever sozinho. Assim, Froid NT Sessions se destaca como uma produção ousada no cenário musical brasileiro.

Quem acompanha o NT Sessions desde o início sabe que o projeto não trabalha com fórmula pronta. A primeira edição juntou Papatinho e L7NNON num show histórico no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Os ingressos esgotaram em poucos minutos. Por outro lado, a segunda trouxe MC Pedrinho e transformou o funk em material de câmara, provando que arranjo orquestral não é sinônimo de domesticação sonora. Agora, com Froid, o NT Sessions muda de registro outra vez. Troca a pista e o batidão por um exercício de introspecção lírica, amplificado por cordas, sopros e percussão sinfônica.

Um retiro criativo que redefiniu o NT Sessions

O Sonastério não é um estúdio comum. Erguido em meio à paisagem mineira, o espaço já recebeu sessões históricas, incluindo uma gravação de Milton Nascimento em 2022. Além disso, funciona como uma espécie de laboratório fechado onde artista e orquestra convivem por dias antes de qualquer faixa ser finalizada. Foi nesse ambiente que Froid passou por um processo de imersão junto à Orquestra Novo Traço, num formato que prioriza o encontro humano antes da técnica. Rafaello Ramundo, idealizador do projeto e à frente da produtora Novo Traço há quase duas décadas, costuma repetir que o NT Sessions nasceu para provar que música orquestrada não precisa apontar o dedo para ninguém. É música popular com outra roupagem, não um exame de admissão.

A curadoria das seis a sete faixas que compõem o novo EP passou pelo crivo de Carlos Prazeres, regente que assume publicamente o desafio de transformar horas de convivência em unidade sonora real entre músicos que muitas vezes tocam juntos pela primeira vez. Esse é o núcleo do NT Sessions enquanto processo. Ou seja, é menos sobre o produto final, e mais sobre o risco calculado de colocar um rapper de Brasília para dividir palco de estúdio com uma formação clássica treinada para outra linguagem inteiramente.

Froid grava no NT Sessions em estúdio de Minas Gerais
Imagem: Internet

Froid e a densidade lírica que o NT Sessions buscava

Froid não chegou até aqui por acaso. Renato Alves Menezes Barreto é o nome de batismo do artista nascido em Belo Horizonte em 1993 e criado artisticamente em Brasília. Ele construiu reputação dentro do circuito de batalhas de rima antes de fundar o grupo Um Barril de Rap. Esse projeto definiu boa parte da cena underground do centro da capital federal entre 2011 e 2017. Depois da dissolução do grupo, Froid seguiu carreira solo com discos e faixas que renderam certificação de ouro e platina. Sempre sustentado por um flow reconhecidamente cerebral, cheio de referência e crítica social. Além disso, Froid NT Sessions traz uma nova forma de unir tradição e vanguarda.

É exatamente essa característica que a organização do NT Sessions aponta como justificativa para o convite. A ideia declarada pela equipe é que a complexidade de pensamento de Froid conversa naturalmente com a grandiosidade de uma orquestra, sem que uma linguagem precise se curvar à outra. Não é a primeira vez que o rapper testa formatos fora do trap e do rap mais direto. Contudo, é a primeira em que essa densidade lírica encontra uma estrutura sinfônica completa, com maestro, partitura e um conjunto de músicos formados para outro repertório histórico.

O NT Sessions como território de fusão entre rap e orquestra

O EP resultante desse encontro reúne faixas como Algumas Coisas Tem Que Acontecer, Argentina, Fantasmas, A Língua dos Anjos, Mundo da Lua, Picnic e Playboy. O repertório passeia por composições já conhecidas do público de Froid, agora reinterpretadas sob arranjo orquestral. O trabalho segue o modelo já testado nas edições anteriores do NT Sessions, financiado integralmente por investimento privado. Isso garante autonomia criativa e evita que o projeto precise responder à métrica imediata de streaming para justificar sua existência. Portanto, Froid NT Sessions representa também uma nova abordagem para o diálogo entre gêneros.

Essa autonomia é o que permite ao NT Sessions se posicionar como algo além de um encontro pontual entre gêneros. O projeto tem construído, edição após edição, um vocabulário próprio para tratar a música urbana brasileira como patrimônio cultural, e não como curiosidade de nicho. Colocar Froid dentro desse vocabulário amplia o espectro do que já foi feito com Papatinho, L7NNON e MC Pedrinho. Além disso, reforça que o rap conceitual e mais cerebral também tem lugar garantido nessa conversa entre clássico e popular.

Por que o NT Sessions importa para o mercado da música urbana

Do ponto de vista de mercado, iniciativas como o NT Sessions cumprem um papel que vai além do lançamento em si. A distribuição via ONErpm garante alcance nas plataformas de streaming, mas o verdadeiro capital construído aqui é de posicionamento. Artistas de rap que participam de projetos orquestrais ganham acesso a públicos que dificilmente cruzariam seu caminho em um show tradicional. Isso se traduz em oportunidades de parceria, editais culturais e espaços institucionais que muitas vezes fecham as portas para o hip hop quando ele aparece isolado de qualquer chancela erudita.

Para Froid, especificamente, o momento chega em um ponto de carreira em que reafirmar sofisticação lírica tem peso estratégico. Depois de anos alternando entre trap e rap mais experimental, o NT Sessions funciona como vitrine de maturidade artística. Ele mostra que a densidade de suas letras resiste a qualquer contexto sonoro, inclusive o mais distante de sua origem nas batalhas de rima do Museu Nacional da República, em Brasília. Da mesma forma, Froid NT Sessions amplia o debate sobre as possibilidades da música orquestrada com rap no Brasil.

O que fica desse encontro entre Froid e a Orquestra Novo Traço é a confirmação de que a cultura urbana brasileira segue encontrando novos territórios para se afirmar sem precisar abrir mão de sua origem. Cada edição do NT Sessions reforça que rap, funk e música orquestral não competem por espaço. Eles disputam a mesma plateia por razões diferentes, e quando se encontram no mesmo estúdio, o resultado tende a ampliar o que se entende por música brasileira contemporânea.

Video: Internet/ Redes Sociais
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