WME 10 anos: hip-hop encerra com Stefanie e NandaTsunami no domingo dia 21/06

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WME celebra 10 anos com Stefanie e NandaTsunami
Imagem: internet

O Women’s Music Event chega à sua décima edição reservando o encerramento mais simbólico do calendário para duas gerações do rap brasileiro: Stefanie e NandaTsunami. Nessa edição especial, o destaque WME Stefanie NandaTsunami ressalta a importância dessas artistas na cena musical nacional. A escolha do WME 2026 para representar o hip-hop no fechamento da programação musical ganha outro peso quando cruzada com os números do Panorama Mapa dos Festivais, estudo que segue radiografando, ano após ano, o tamanho da desigualdade de gênero nos palcos da música ao vivo no Brasil.

Tem festival que fecha com fogos de artifício e tem festival que fecha com uma escolha política. O WME 2026 optou pela segunda via, e fez isso de forma deliberada.

Para celebrar uma década de existência, o Women’s Music Event reservou o horário mais simbólico de sua programação, o de encerramento, para duas representantes de momentos distintos do rap nacional.

No domingo, 21 de junho, a DJ Vivian Marques abre o último dia de evento a partir das 16h na Praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo, preparando o terreno para a apresentação de Stefanie, marcada para as 19h30, e para o show de NandaTsunami, que sobe ao palco às 21h para fechar oficialmente a edição de dez anos.

Stefanie chega ao evento como madrinha desta edição, trazendo o repertório de seu álbum de estreia “BUNMI”, marcado pela precisão de suas rimas e pela conexão direta com a tradição do hip-hop brasileiro.

NandaTsunami representa a camada mais recente da cena, com composições que misturam rap, trap, funk paulista e afrobeat, um repertório que já rendeu à artista uma turnê de sucesso com o álbum “É Disso Que Eu Me Alimento”.

A escolha de colocar duas mulheres do rap no posto mais cobiçado da grade, o fechamento, inverte uma lógica histórica do próprio hip-hop nacional, gênero que nasceu nas batalhas de rima e nos bailes de periferia como espaço quase exclusivamente masculino e que, nas últimas duas décadas, viu nomes como Dina Di, Negra Li e Karol Conká abrirem trilha, item por item, para a geração que hoje ocupa o centro do palco.

O que o Panorama Mapa dos Festivais revela sobre desigualdade

É exatamente nesse ponto que o gesto do WME ganha densidade analítica, e não apenas valor simbólico. O Panorama Mapa dos Festivais, principal pesquisa sobre o setor de festivais de música no Brasil, mapeou que apenas 13,2% dos artistas que sobem aos palcos dos festivais brasileiros são mulheres cis, enquanto homens cis ocupam 63,3% dos line-ups, um cenário que se repete ano após ano desde 2023. Pessoas trans e não binárias, por sua vez, somam menos de 1% das atrações, um recorte que escancara a dimensão real da exclusão quando o filtro passa da identidade de gênero binária para identidades ainda mais marginalizadas dentro do próprio mercado musical.

Esses números não nascem de acaso, nem se sustentam sem causa estrutural. O estudo “Por Elas Que Fazem a Música”, realizado pela União Brasileira de Compositores, oferece a outra face dessa mesma moeda: mulheres compositoras representaram apenas 10% do total de direitos autorais distribuído no Brasil em um dos últimos levantamentos do setor, um indicador que caminha junto com a sub-representação nos palcos. Quando artista mulher tem menos espaço em line-up de festival, ela automaticamente acessa menos cachê de show, menos exposição para o público pagante, e por consequência, menos direito autoral gerado por execução pública. A cadeia é direta, e os dados ajudam a comprovar o que a cena do rap feminino já denuncia em entrevista há anos.

Dentro do recorte específico de rap e trap, a tendência recente é ainda mais preocupante. O Panorama mais recente do Mapa dos Festivais identificou que, enquanto gêneros como jazz e blues vêm crescendo dentro dos line-ups nacionais, festivais dedicados exclusivamente a rap e trap registraram retração na comparação com anos anteriores. Isso significa que o espaço historicamente mais hostil à presença feminina, o hip-hop, está encolhendo justamente no momento em que mais mulheres negras e periféricas conquistam relevância de público e de crítica dentro do gênero, uma contradição que merece atenção de quem acompanha o mercado com profundidade.

A desigualdade de cachê dentro do próprio hip-hop fica mais visível quando se observa o topo da cadeia. Nomes consagrados do rap e do trap nacional movimentam cachês que variam entre seis dígitos por apresentação, somando shows, publicidade e plataformas de streaming como fontes de receita que se multiplicam ao longo do ano. Esse patamar de remuneração, construído ao longo de anos de consolidação midiática, ainda é majoritariamente ocupado por nomes masculinos, enquanto artistas mulheres do mesmo gênero musical, mesmo com números de streaming e engajamento de público comparáveis, relatam dificuldade recorrente para entrar no radar de produtores e curadores de festival, etapa que costuma definir o tamanho do cachê antes mesmo de qualquer negociação começar.

Encerrar o WME com hip-hop feminino é também um dado de mercado

Colocar Stefanie e NandaTsunami no horário de maior visibilidade de um evento que está comemorando dez anos de existência é, portanto, mais do que uma escolha de curadoria sensível. É uma intervenção direta na lógica de exposição que historicamente nega às mulheres do rap o tipo de vitrine que define cachê, fechamento de contrato e atenção de marca patrocinadora. Festival com line-up majoritariamente masculino tende a reproduzir, edição após edição, a mesma rede de contatos, a mesma régua de cachê e a mesma régua de prioridade na hora de fechar grade. Romper esse ciclo, mesmo que pontualmente, é o tipo de gesto que produz efeito cascata: quando uma curadoria de peso decide fechar a noite mais importante do calendário com duas mulheres do rap, isso entra no radar de outros produtores, de outras marcas patrocinadoras, e de outros editores de playlist que monitoram quem está sendo validado pelo circuito.

Vale lembrar que o WME nasceu justamente para furar esse tipo de barreira estrutural. Criado há uma década pela curadora musical Monique Dardenne e pela jornalista Claudia Assef com o propósito de dar mais espaço às mulheres na indústria musical, o evento se consolidou como um dos principais points de capacitação, networking e visibilidade para profissionais da música no Brasil, reunindo shows gratuitos com debates, painéis e oficinas voltadas ao mercado. A programação de 2026 segue essa linha: a entrada para os shows na Praça Dom José Gaspar é gratuita, ampliando o acesso de um público que, segundo os próprios dados do Mapa dos Festivais, é majoritariamente da classe C e prioriza experiências de música ao vivo que não dependam do alto valor de ingresso médio que domina o circuito de grandes festivais nacionais.

O hip-hop que vem depois de Stefanie e NandaTsunami

O encerramento do WME 2026 funciona, então, como uma fotografia em movimento de onde está e para onde caminha o rap feminino brasileiro. Stefanie carrega o peso e a credibilidade de quem construiu carreira sólida dentro do hip-hop nacional, com presença consolidada e disco de estreia que dialoga diretamente com a tradição do gênero. NandaTsunami representa a geração que já nasceu fundindo rap com trap, funk paulista e afrobeat, ampliando o vocabulário sonoro do hip-hop nacional sem abandonar a espinha dorsal de rima afiada e narrativa de território que sempre definiu o gênero.

Os números do Panorama Mapa dos Festivais deixam claro que esse tipo de protagonismo ainda é exceção dentro da regra geral do mercado de festivais brasileiro, não a regra em si. Mas eventos como o WME, ao colocar peso editorial e horário de prestígio nas mãos de mulheres do rap, ajudam a empurrar um pouco mais para frente o dia em que esses números deixarão de surpreender, porque deixarão de ser excepcionais. Até esse dia chegar, cada line-up de encerramento como o de 2026 funciona como um recado direto para o resto da indústria: o hip-hop feminino não precisa de espaço cedido como favor, precisa de espaço reconhecido como mérito, e o WME, com Stefanie e NandaTsunami no fechamento de seus dez anos, deu esse recado em alto e bom som.