Sete anos depois de “Mundo Manicongo”, rapper paulistano mostra a arte do terceiro álbum, marcado para 30 de junho. Ele amarra futebol de quintal, estética afro e periferia numa composição só. Rincon Sapiência revela a capa de “Um Corpo Preto” neste novo projeto.
A trave sem rede inteira, o varal cheio de camisas de seleções africanas balançando ao vento, o gramado puído de campo de várzea. É nesse cenário — tão comum em qualquer bairro popular de São Paulo quanto um campinho de pelada — que Rincon Sapiência decidiu plantar a imagem que vai estampar seu terceiro álbum de estúdio. A capa de “Um Corpo Preto” foi revelada com exclusividade pelo perfil oficial do artista @rinconsapiencia. Além disso, ela antecipa, em uma fotografia só, tudo que o disco promete discutir: identidade, pertencimento e a potência criativa da música negra.
Na imagem, assinada pela fotógrafa Nuna Nunes, Rincon aparece de boina verde, terno num tom terroso e os braços cheios de colares, broches e anéis. Entre eles, há uma pequena lagartixa dourada fixada na lapela, símbolo recorrente no imaginário afro-brasileiro. Ao fundo, uma camisa azul com as cores da seleção da República Democrática do Congo se destaca no varal. Dessa forma, o gesto conecta diretamente o título do álbum à raiz “Manicongo” que já dava nome ao universo criado pelo artista desde 2019.
Um disco gestado por sete anos
Anunciado ainda em 2023 com o single “Xona”, “Um Corpo Preto” demorou para sair do papel — e o próprio Rincon já havia explicado por quê. Em entrevistas ao longo do processo, o rapper contou que prefere construir álbuns como narrativas fechadas, em que as faixas conversam entre si. Portanto, ele não trabalha com uma simples coleção de sucessos isolados. O resultado é um projeto de 17 faixas que atravessa eletrônica, samba, reggae, dancehall, afrobeats, funk e rap. Ainda assim, o álbum reúne nomes de gerações distintas: Péricles, Dino D’Santiago, Lino Krizz, Funk Buia, Mylena Drague, Marissol Mwaba, Torya, F7rança e Bren9ve.
A escolha de misturar um sambista consagrado como Péricles com nomes mais recentes da cena periférica não é acidente. Aliás, é a mesma lógica que rege a capa: o corpo preto não é uma estética fixa, é um território que atravessa o asfalto da quebrada, o gramado da várzea e o continente africano ao mesmo tempo.
Várzea como linguagem, não como cenário
Quem acompanha a trajetória de Rincon sabe que o futebol nunca foi só pano de fundo — está no próprio nome artístico, inspirado no colombiano Freddy Rincón, ídolo do Corinthians (mesmo o rapper sendo torcedor do Palmeiras). O primeiro single da nova fase, “Homem Gol”, parceria com Péricles e Marissol Mwaba lançada em junho, já tinha colocado o futebol de várzea no centro da narrativa. Dessa forma, a música fala de jovens da periferia tentando “driblar adversidades” para se tornar atletas profissionais, longe dos holofotes dos grandes estádios.
A capa do álbum dá continuidade a esse raciocínio visual. Não é um estúdio fechado, nem um cenário urbano genérico — é o campinho de bairro, com sua trave torta e sua rede furada. Aliás, é o mesmo espaço onde várias gerações de meninos pretos sonharam (e ainda sonham) com a bola antes de qualquer microfone.
“Tudo ganha uma narrativa e um viés mais complexo quando se trata de um corpo preto”
Foi assim que Rincon definiu, em entrevista anterior, a proposta do disco: pensar temas universais — relacionamento, dinheiro, comunicação. Contudo, ele busca isso sempre atravessados pela vivência específica de ser um corpo negro no Brasil.
Um varal que é manifesto
Se a trave remete à várzea, o varal de camisas de futebol africanas amplia o raio da conversa para a diáspora. Não é uma seleção brasileira no centro da imagem — é o continente de onde vieram as referências que Rincon pesquisa desde “Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps” (2019). Nesse sentido, o álbum já flertava com batidas eletrônicas e ritmos africanos contemporâneos como forma de afirmação cultural.
A combinação entre terno alfaiataria, joias e um cenário de quintal popular também repete uma fórmula que Rincon já vinha testando. Assim, elegância e periferia não são polos opostos, são a mesma coisa vista de ângulos diferentes. É a “afroestima” que o próprio artista cita como motor de sua obra — a ideia de que existir inteiro, sem recortar pedaços da própria identidade, já é por si só um ato político.
Com lançamento previsto para 30 de junho pelo selo MGoma, criado pelo próprio Rincon, “Um Corpo Preto” chega como o capítulo mais ambicioso de uma carreira construída sobre a ponte entre rua, memória e futuro. Por isso, a capa, com sua trave, seu varal e seus colares, já avisa por onde essa ponte vai passar.











